terça-feira, 27 de novembro de 2007

Hay que...

A reflexão veio de um comentário sobre a dieta prescrita por um médico nissei para um italiano que por uma educação bem cuidada é incapaz de criar uma “cinque giornate” em defesa da cozinha mediterrânea. Da companheira bem intencionada sempre disposta a aceitar o exótico como panacéia: “Ele (o médico) é um oriental!”

Já passamos pela fase do “Marx explica!”, do “Freud explica!” e agora parece que estamos na do “O Oriente explica!”. Não sou careta em alimentação. Passei pela naturalista, a vegetariana, a macrobiótica (do Osawa e do Kikuchi), e mais uma série de experiências abandonadas tão logo se ficava verde, cinza ou de outra qualquer cor improvável. Até que cheguei, como outros da minha geração, a “ouvir o próprio corpo” e ele apontava para a minha história familiar. A sapiência contida nesse dito é o reconhecimento da relação indissociável que existe entre alimentação e nutrição. Pensem apenas no seguinte: se uma etnia que nunca tenha usado o sal (NaCl) diariamente na sua alimentação pode levar até 800 anos para a sua assimilação, passando por inúmeros problemas de saúde ao longo desse tempo, imaginem um caucasiano tentando equilibrar a sua saúde com uma dieta japonesa!

Outro aspecto do “orientalismo” dominante é a tendência a valorizar apenas os aspectos exóticos de alguns países. Nunca vi ninguém querendo encontrar o seu guru no Laos ou no Vietnan ou na Tailândia. O irônico é o completo desconhecimento da vida espiritual popular equivalente em seus próprios países. Daí não haver termo de comparação e a coisa conduzir ou a modismo ou ao fanatismo. Sejamos honestos: a arte indiana produz coisas de grande valor e o seu artesanato fino, para consumo interno tem qualidade, porque expressa valores culturais definidos. Agora, que está cheio de coisas de “carregação” impingida a turistas indefesos, isso está. Infelizmente, não há o que possa substituir o bom senso na busca da universalidade. Nem na alimentação/nutrição corretas.

Nota sobre a frase original:
O militante recebe um tiro e cai. Dois compañeros correm e um deles pergunta ao caído: -“Você está morrendo. Quais são as suas ultimas palavras para a História? E tem por resposta: -“Que merda!”, e morre! Um dos remanescentes diz: -“E agora?” e ouve do outro: -“Sei lá, depois a gente inventa alguma coisa.” (Primeira Feira Paulista de Opinião,1968, Teatro Ruth Escobar – na fila de trás, um Sábato irritado e uma Ilka, que já deveria ser a mesma grande dama aos quatro meses, de idade tentando acalmá-lo)

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Sullus

Quem caminha num mercado andino vai acabar vendo, se estiver atento, cestos como esse. São os respeitadíssimos “Sullus” ou fetos de llamas secos. Antes que algum espanto judaico-cristão ocidental possa provocar mal entendidos é bom explicar: ninguém provoca abortos nesses simpáticos camélidos. A ocorrência do aborto espontâneo é extremamente comum entre as llamas. Os camponeses, observando uma prenhez interrompida, procuram pelos campos e recolhem o feto. Na conservação dele são auxiliados pelo próprio clima seco que impede a decomposição. Uma vez completamente desidratados são levados as feiras para venda.

O Sullu é um dos elementos fundamentais para uma oferenda (cha’lla) completa à Pachamama. São também usados no ritual da cha’lla da casa: quando uma casa nova fica pronta, antes da colocação do telhado, ela deve receber um sullu em cada um dos ângulos extremos, colocado em uma escavação junto do alicerce. Só depois a casa é enfeitada com cestos de flores e banhada simbolicamente com bebidas alcoólicas. O sincretismo provocado pela dominação religiosa católica e branca trouxe uma expressão muitas vezes usada em lugar de cha’lla: “glória missa”.

Quanto a Pachamama, é bom lembrar que a religião antiga andina é feita de conceitos puramente metafísicos. A sua transmissão, oral, fez com que a complexidade desses mesmos conceitos encontrasse, ao longo dos séculos, uma fluidez de formulação que tornou o pensamento religioso abstrato uma prática generalizada. A ocorrência de símbolos tem uma função pedagógica voltada para o inicio do aprendizado. Exemplos? A Pachamama é a “terra” , a Terra e, ao mesmo tempo uma entidade imaterial (mais “Grande Mãe” que deusa) que permeia tudo o que diz respeito a vida material. Solo, águas, colheitas, casas (lá feitas de adobe), pedras, animais, aves e humanos são o seu corpo e manifestação (al.: da sein). É o princípio feminino por excelência. Sem ela não haveria a Vida. É por isso que quando defrontamos alguma forma de vida (humana ou animal) morta dizemos, como que devolve o que cessou de viver a ela: “que se reciba!” Uma boa explicação que tive sobre isso veio de um amigo que não vejo a muito tempo, Rufino Paxsi, camponês e médico aymara na comunidade de Waraya. Perguntei-lhe se o sol era realmente “Inti”, um deus. A resposta, com a paciência que o caracterizava em relação aos Can’cas (gringos) bem intencionados começou pela explicitação de que o vocábulo “Inti” significava mais a luz que a estrela, daí a sua aplicação ao astro-rei simbolizando o Princípio Único . Quanto a ser o Sol um “deus supremo”, longe disso. “Os aymaras” disse, “não personificam as suas divindades. Quando você entende que sem a luz e o calor não haveria vida na Terra e você sabe que essa energia vem do alto, de algum lugar que não podemos ver, mas sabemos que existe, isso é o princípio de todas as coisas. Tão grande que a inteligência humana não o pode pensar. O Sol, grande como é, nós podemos entender. E é um pequeno símbolo para isso que não alcançamos definir.” Falou-me também da simbologia da fecundação da Terra pelo Sol para gerar o que é vivo. Ficou-me uma imagem-síntese dessa manhã que tinha começado com a recolha dos chuños um pouco antes do alvorecer: a Vida é o casamento da Terra com a Luz.

sábado, 24 de novembro de 2007

Réquiem


Passavamos todos as tardes pela rua Baronesa de Itú em SP. Num desses dias vimos uma das últimas belas casas do Higienópolis original com sinais de início de demolição, incluindo a trágica placa "Vende-se material de demolição". Paramos o carro e pedimos prá ver e fotografar. Estas fotos apareceram na "arrumação" que venho fazendo em outra casa, outra cidade. Não sei onde a Ruth conseguiu a flor, já murcha. Ela colocou-a sobre o ladrilho hidráulico que estava em melhores condições e disse-me para fotografa-la. Era 1984. Então existiam a casa, a ProColor, que fez a revelação e a Ruth. Hoje, nenhuma das três.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Meu anjo-da-guarda

Juro que vi! Até fotografei! Lamento a qualidade da imagem, mas meu scanner não é prá slides. Volto a afirmar: deve estar lá. No mesmo batistério medieval da cidade de Ascoli Piceno, lado de fora, na lateral (só não lembro se direita ou esquerda). Bom, na verdade a planta é octogonal e por lateral passam 3 faces de cada lado. Mas ele com certeza continuará lá, como o vi numa manhã de inverno, há muito tempo. Talvez suavizado por um café da manhã, com grappa e um(s) bom copo de vinho umbro pelo caminho, pensei que o meu batismo, feito a revelia, teria sido ao menos poético se tivesse ocorrido num lugar daquele tipo. Aí vi o Anjo! Talhado na pedra por mãos antigas deu-me a impressão de estar ali a esperar-me há 800 anos. Tudo nele fazia supor ser o meu anjo-da-guarda: o seu humor, com "leves" toques de impaciência, coincidiam com o meu. Os braços cruzados pela longa espera. Tão longa, tendo em conta a certeza que tenho do Inferno, mas não do Céu, que estava ficando careca. De tanto esperar. O unico anjo com calva frontal que vi até hoje. Olhando através da meia-tele perguntei mentalmente se ele era mesmo o meu anjo-da-guarda. Não posso jurar, mas pelo sorriso irônico que creio ter visto, fiquei com a certeza que sim.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Montagem?


Não Lili. Nem a anterior nem esta são montagens. Apenas ter a camera (ótica, não digital) pronta para o que desse e viesse. Nós, velhos fotógrafos, carregavamos as nossas bolsas fotográficas (as minhas eram, sempre que possível, de lona) até quase desmancharem pelo uso constante e na maioria das vezes, pelo menos uma camera pendurada no pescoço. O resto era determinação e ôlho. Percepção de contexto. Depois, camara escura para revelar e copiar. Aí entrava o complemento da linguagem pessoal: contraste e textura (escolha do papel), escala de cinzas, recorte. E se você olhar os tons em p&b que uso, ficará clara a eterna citação de Pontecorvo. A "Batalha de Argel" foi biblia e modelo pra muitos da minha geração. Neste caso, dos palhaços, a sorte foi estar do lado certo da janela e a teleobjetiva ser boa.

domingo, 11 de novembro de 2007

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

De novo?

Somos seres estranhos.
Podem nos faltar palavras, mas não imagens.

domingo, 4 de novembro de 2007

PHA em crise (P.S.:)

Não gostar ( ou mesmo odiar) paulistas é fashion para alguns desde Getúlio Vargas em 1930. Mas não gostar de gatos...

PHA em crise

Paulo Henrique Amorim, cansado talvez de ser ofuscado (com justiça) pela ovelha Dolly como primeiro clone bem sucedido parece estar em crise. Sua tentativa de clonar o falecido Paulo Francis (Deus o tenha entre os seus) não mereceu a devida atenção científica por motivos óbvios. Assim, Dolly levou a palma. Apesar da falta de erudição, típica do original, e de um fonoaudiologo competente, o clone, mesmo rústico, até que se deu bem. Era tolerável e as vezes interessante. Seria por verem esgotadas as suas possibilidades futuras que ele decidiu começar a "bater" em São Paulo e nos paulistas? Confira em http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/464001-464500/464019/464019_1.html. Outra hipótese é uma eclosão tardia da sindrome "global" que tem as mesmas manifestações.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

"Os mortos não podem louvar a Deus"

Outro dia, com calma escreverei sobre Aldo Sonnino e seus "Racconti chassidici dei nostri tempi"(Editrice La Giuntina, Firenze, 1978, 1995). Por hoje, porque alusivo, fica este texto do livro.
. . .
Os olhos do jovem Shelomò eram tão penetrantes que parecia quisessem perfurar o Céu. Na pequena vila murmurava-se que nenhum homem sabia, como ele, amar a Deus com todo o coração, toda a alma e todas as forças.

Um versículo dos salmos, lá onde está escrito que “os mortos não podem louvar a Deus”, entristecia profundamente Shelomò. Buscou então o seu Rabi para conhecer o sentido oculto daquelas palavras.

Disse Shelomò ao Rabi: “Meu Mestre, o Santo dos Santos fixou o dia do meu nascimento. O Santo dos Santos decretará o dia da minha morte. Nesta terra, aprendi a amar a Deus, seguir os seus mandamentos e dizer os seus louvores. Eu não desejo que exista um dia, um dia somente, no outro mundo no qual não me será concedido louvar a Deus.”

Respondeu o Rabí: “existem dois modos de louvar a Deus. Em vida, sobre esta terra, os teus louvores ao Senhor nascem das ações que você pratica cotidianamente, ajudando o próximo e trazendo serenidade ao coração dos homens ( que o Santo dos Santos criou a sua imagem e semelhança). Neste sentido, os mortos não podem mais louvar a Deus.

Quando a tua alma abandonar esta terra, ela levará consigo todo o amor com o qual, em vida, amaste o Santo dos Santos. Então os Anjos te acolherão e poderás unir-te aos seus louvores. Somente nesse sentido os mortos podem louvar a Deus.”

domingo, 28 de outubro de 2007

Quão dissemelhante 3



Chegamos a Uberlândia na sexta, inicio da tarde, com as “precisas” indicações do dr Ortopedista famoso(localmente) de Caldas: Hospital Sta. Marta, Dr Zilbo, seu ex-professor. Sem rua, numero ou telefone. Ao pedirmos a informação em um posto de gasolina, os frentistas, a moça do caixa e o gerente, todos mobilizaram-se para localizar e nos indicar o caminho, dar o endereço e o telefone correto de lá: uma solidariedade que não existiu no médico que fez a indicação.

Hospital Santa Marta: desde a internação, rápida e sem problemas, até agora, domingo a noite, nenhum problema. O João, que o retirou do carro permanecendo ao seu lado até o apartamento, mostrou o astral do lugar rindo quando eu o informei que poderia soltar a cadeira de rodas porque o meu sogro não teria a menor chance de fugir com ela. A primeira surpresa foi que os apartamentos dão para uma varanda onde se pode fumar (ALELUIA!) sem ter que sair do edifício. Este fato já provocou-me uma inspiração mística: propor aoVaticano que Sta. Marta seja designada a patronessa dos fumantes hospitalares.

A segunda surpresa: o nome do ex-professor era Gildo e não Zilbo. Logo no primeiro contato ficou clara a segurança com que se poderia contar a partir de um dialogo franco, sem vaidade clinica ou marketing pessoal. Dr. Gildo Moacir de Souza é um daqueles raros profissionais para quem um extenso e brilhante currículo significa apenas o registro de uma vida profissional. Uma abertura para o dialogo continuado mostra a sua capacidade de reinventar-se a cada dia. Manteve a sua presença ao longo do sábado - cirurgia pela manhã e visita a tarde, embora fosse o dia do casamento da filha, a primeira a casar-se na família. Hoje, fez pessoalmente o curativo e avaliou o resultado. Dessa experiência fica uma paráfrase ao ditado nordestino sobre pais e filhos: “aluno só puxa o Mestre quando o Mestre é ceguinho!”

Uma estória engraçada: meu sogro já saira do centro cirúrgico para o R-X e eu estava na porta do apartamento esperando a sua volta quando passam duas técnicas de enfermagem (Rodislaine e Cristiane) e uma delas, Rodislaine, pergunta se o meu pai já chegou. Explico tratar-se do meu sogro e ela informa, com um sorriso inesquecível, ter deixado na maca um saquinho com a cabeça do fêmur em formol e pede que eu informe a enfermagem destinar-se o material não a nenhum tipo de exame, mas ao atendimento do pedido do paciente que pretendia colocá-la em uma feijoada.

Não sei o nome de todas as que cuidaram de meu sogro. As mais presentes foram a Ana Paula, a Maiene e a enfermeira Ivone. Nelas, e também em Rodislaine e Cristiane, assim como nas moças da copa e da limpeza que por lá passaram, o tríplice sinal da Deusa (Feminilidade, Força e Misericórdia) expresso em seus olhos e sorrisos. Que Ela continue a gerar, conduzir e abençoar as suas filhas!

sábado, 27 de outubro de 2007

Quão dissemelhante 2

De Caldas Novas a Uberlândia a viagem teve as suas estranhezas habituais.
Não deixa de ser simbólico o nome do hospital de destino: Santa Marta. Já que os médicos do N.S.Aparecida deram alta para o meu sogro desejando nos ver pelas costas como se fossemos todos leprosos – é assim que qualquer profissional incompetente reage a questionamentos, já notaram? – demos entrada num hospital que tem o nome (segundo João Evangelista) da irmã de Lázaro.
. . .
Duas coisas que só soube hoje:
o dr. Ortopedista (localmente) famoso de Caldas manteve o meu sogro desde a primeira queda até a saída do hospital após a segunda só com Lisador.
o dr. Fisioterapeuta foi quem vendeu a cadeira de banho cujas rodas quebram frequentemente: a ultima, voltando da fábrica, levou 4 metros de percurso para romper-se ( 6 testemunhas!).

Moral da história: familiar que questiona desestabiliza a mamata.

Amanhã conto mais, mas serão coisas boas, espero!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Quão dissemelhante?

Cidadão brasileiro de 84 anos sofre queda na calçada a cinqüenta metros da residência. O estado de conservação das calçadas na cidade de Caldas Novas, Goiás convida a isso. Natural numa cidade onde o esporte predileto dos políticos nativos é a caça judicial ao prefeito em exercício. Eu disse caça mesmo. Já caçaram judicialmente 3, quase 1 por mês. Conduzido ao Hospital N.S.Aparecida passa por uma avaliação clínica e é enviado para casa onde fica sob medicação, para lesões musculares. Nova queda provocada por falha da perna afetada. O ortopedista que acompanha o caso mora no mesmo pequeno condomínio de 6 casas. A segunda queda é tratada sem que seja feita nenhuma radiografia e durante 18 dias provoca dores que obrigam o paciente a permanecer sentado em uma cadeira de rodas 24 horas por dia. Isso inclui fisioterapia feita por profissional habilitado do mesmo hospital que também nem ao menos suspeita de uma possível fratura. A situação obriga a procurar uma funcionária que cubra as necessidades de trabalho doméstico e tenha conhecimentos de enfermagem. Apenas admitida, essa pessoa apresentada por um casal vizinho e seguramente enviada por Deus pressiona o famoso (localmente) ortopedista para que seja feita uma verificação radiológica da lesão. Com a volta do paciente ao mesmo Hospital N.S.Aparecida o profissional o entrega a um colega mais jovem e a fratura de fêmur é constatada.

Iniciam-se as discussões sobre a necessidade de uma cirurgia sob a forma de junta médica. Introduz-se na história um ortopedista de Goiânia que informa os familiares que ele é um especialista e nenhum dos seus pacientes jamais precisou de UTI (que o hospital não tem, como não tem campainhas de emergência nos quartos e apartamentos) e também que ele fará a cirurgia lá mesmo. Informa ainda que está em Caldas Novas porque é feriado municipal em Goiânia (Lavoisier explica esta parte). Até então, como ele próprio declarou, ainda não havia visto as radiografias. Como havia controvérsia: o cardiologista e o anestesista julgavam ser um grande risco e os outros achavam que não, pede-se a anuência do paciente que, é claro, prefere não ter que ser removido para outra cidade. O doutor de Goiânia, questionado racionalmente por sente-se picado no seu orgulho (ou vaidade?) profissional (la garantia soy yo!) e decide não mais realizar a cirurgia por excesso de intromissão familiar – genro viúvo é família??? Mandam o paciente para casa e entre a alta e o pagamento da permanência, as faturas têm que serem refeitas três vezes por não suportarem conferencia e acabam decrescendo em cerca de 20% no total.

O encaminhamento é feito sob a forma de “declaração” e as chapas radiológicas não tem laudo. Amanhã, pela manhã,a vitima, digo paciente, partirá para Uberlândia onde, espera-se, será finalmente operado. Mais notícias desde Uberlândia em breve.

Memento: Uderzo e Goscinny já disseram através de um de seus personagens em”Asterix”: ...uma junta médica mata mais do que uma legião romana armada até os dentes!”

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Hay de todo...

passagem da Aeroflot, nos anos soviéticos de 1957
"Hay de todo en estes supermercado de Dios!" já dizia Manolito,
um personagem de Quino.
Pode-se dizer o mesmo deste blog.

domingo, 21 de outubro de 2007

Ruth


Oito meses hoje. Tirei dos guardados esta foto que fiz de você no mesmo ano (1982) em que um Gil sensível e lúcido, ainda não pasteurizado pela avidez do poder escreveu:
“... O verdadeiro amor é vão / Estende-se, infinito / Imenso monólito / Nossa arquitetura / Quem poderá fazer / Aquele amor morrer!...”
Gostávamos disso então. Creio nisso ainda!

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Arthur e a mesa

Foi ontem. num “Frango Assado” a margem da rodovia dos Bandeirantes. Parada para sanduíche e salgadinho. Consumido o salgadinho de espera do sanduíche uma sensação de perda de tempo causada exatamente...pela espera. Todos, ou ao menos parecia, estavam com a mesma premência de seguir viagem. Não sei se alguém mais ouviu quando o garoto com seu salgadinho pediu a mãe para sentar-se a uma mesa. Eu ouvi. E de pé junto ao balcão vi quando se dirigiram a ela. Num carrossel com velocidade de hd em busca que começava com o primeiro hambúrguer comido na lanchonete da então única Loja Americana, no centrão velho em SP (sentado em banquinho, no balcão) com todo o charme da novidade até o presente naquele momento desfilaram sanduíches, salgadinhos e lugares ao longo de mais de 40 anos. Da pré-fast food (por preparo) a super fast food (por consumo). Tão pouco tenho usado a minha mesa que ela acabou por converter-se em apoio de agenda, chaves e ocasionalmente de compras para serem desembaladas no dia seguinte. O garoto e sua mãe, a minha esquerda, comiam com a placidez dos que tem na refeição, qualquer que ela seja, um momento dignificante da condição humana. A pequena mesa alta e seus banquinhos convertidos em instrumentos de rito sagrado. Paz em meio ao barulho e a ansiedade. Meu sanduíche findo, eles ainda estavam lá. Aproximei-me, perguntei o nome do garoto: Arthur! Com tudo que me ia por dentro frente ao ensinamento contido numa frase dita por uma criança, mal consegui agradecê-lo. A percepção de por quantas formas podemos nos distanciar da condição humana ainda doía quando entrei no carro. Trabalhei todo o dia com o fato indo e voltando a memória. Cheguei tarde em casa. Tirei da geladeira uma torta salgada ganha no domingo de vizinhos muito queridos. Aqueci e comi – sentado – com garfo e faca, relegando o guardanapo de papel a sua função básica. Fui depois até as estantes e busca feita, retirei do envelope plástico em que o havia colocado o texto de “La dignità dell’uomo” (De hominis dignitate) de Giovanni Pico della Mirandola. Talvez seja o tempo de continuar o trabalho de tradução e notas a que me propus dez anos atrás e interrompi há quatro. Sabe Arthur, que o teu antecessor remoto e famoso não foi só o grande e trágico rei guerreiro de algumas versões da sua história. A sua criação, a Tavola Redonda, foi a base de todo o futuro código de honra da cavalaria medieval. Te agradeço e abençôo o exemplo dado. Que a tua vida seja longa e feliz e te permita tocar as vidas de muitos outros com a luminosidade com que tocaste a minha. Assim seja!

domingo, 14 de outubro de 2007

Pavarotti, Gigli e a Casa Verde

Tropeçar em alguém que neste ano de 2007 p.P. (pós-Pavarotti) entusiasme-se diante de um cd de Beniamino Gigli que ouviu na infância em 78 rpm, com os avós é uma dessas experiências raras que ensejam reflexões para além do fato em si. É verdade que o fórum da revista Panorama mostra bem que mesmo na Itália a figura do midiático cantor recentemente falecido nunca foi nenhuma unanimidade: há até quem o chame “Pavorotti”. Por outro lado, suponho que no imaginário de integrantes de Olodum a duplas sertanejas o sentimento de orfandade de expectativas foi imenso. Como Plácido gravou até hino de time de futebol, não percam as esperanças, mas Carreras não tem a mesma tolerância circense. A verdade é que o morto ilustre era um cantor pop com vozeirão, afastado há muito dos palcos sérios da ópera. Há tempos que Don Luciano só interpretava a si mesmo, como acontece neste nosso país com a cansativa e monolítica Fernanda Montenegro, ela com mais provincianismo e bem menos humor e graça.

O que causa uma certa tristeza pela não lembrança e alegria quando há com quem partilhar é a memória do Gigli. Um pouco de tempo em mecanismos de busca poderá dar aos mais jovens a dimensão deste, ele sim um verdadeiro Tenor. Voz, força interior e dignidade, espírito fraterno e magnitude natural deram a Beniamino Gigli (1890-1957) a difícil condição de suceder (e superar em certos aspectos) o não menos grande Enrico Caruso. É lamentável que uma observação dos que vieram depois dele tenha mostrado, Pavarotti incluso, que nos sobraram apenas figuras menores.

Nestes tempos de banalização que levaram Nessun dorma, de Turandot, até os programas de calouros, talvez valha a pena ouvir esse fragmento para fins comparativos através do link http://www.epdlp.com/opera.php?id=105

E a Casa Verde, onde entra?
A estória foi contada pelo Dr. C. G., de origem tcheca que a ouviu inúmeras vezes de seu pai, imigrante e marceneiro. Este senhor trabalhava numa das pequenas fábricas de móveis que até os anos ’50 ainda existiam no Bairro da Casa Verde, SP e morava proximo dali, no mesmo bairro. No final da jornada de trabalho costumava voltar para casa acompanhado por outro marceneiro, este italiano, filho único e solteirão que vivia com a mãe viúva, possessiva e irascível alguns quarteirões antes dele. Certa tarde, em 1958, ao chegarem a casa do italiano, o amigo e colega assiste a seguinte cena: um considerável numero de idosos estão dentro e fora dela, alguns em prantos. O italiano pergunta o que aconteceu na sua casa e lhe dizem que a sua mãe tinha morrido. Ele olha em volta, e como uma forma de libertação diz: “e vocês estão chorando por essa filha-da-puta? Vocês deveriam ter chorado quando morreu o Gigli!”

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Amanteigados



Esta postagem deveria ter sido feita antes, na serie “on the road”. Por uma bobeada do digitador ou por influencias cósmicas a foto escondeu-se até hoje (a segunda hipótese é mais charmosa). Assim vejo-me no dever de partilhar com vocês um aspecto da culinária serrana que apenas entrevi: os amanteigados.

Estes foram encontrados no Ponto dos Pães, na avenida principal de Urubici, uma pequena padaria onde também é feito um pão de milho colonial fantástico e completamente diferente, enquanto textura e sabor, dos que conhecemos em SP.

São do tipo capaz de alucinar um confeiteiro austríaco! Depois de degustar um, motivado pela necessidade de conceituação, comi o segundo. Daí a afirmação: são do tipo capaz de alucinar um confeiteiro austríaco! Este foi o meu primeiro contato com um universo a ser explorado “se a tanto me ajudarem o engenho e a arte”.

A estória é a seguinte: nos tempos da colonização da serra catarinense fazia parte das práticas domésticas a separação da manteiga do leite fresco. Donde ela era abundante mas oferecia os seus problemas para ser conservada. Por hábito europeu, o papel do pão na dieta rural era muito forte. Some-se a isso o bom senso típico das populações camponesas e essa manteiga passou a ser incorporada a vários elementos de longa conservação que faziam parte do dia-a-dia, principalmente as massas assadas. Quem me contou foi o padeiro, ele mesmo um serrano. Parece haver uma grande variedade de pães com essa denominação, amanteigados. Será uma agradável tarefa descobri-los.

sábado, 6 de outubro de 2007

Teimosia (parcialmente) recompensada

Após anos de insistencia junto aos japoneses do pastel-de-feira, pizzarias e demais usuários de azeitonas, tive a surpresa de ver a adoção da salutar e civilizada prática do uso da azeitona sem caroço na padaria Ceci em Moema,SP. Há cerca de 3 anos atrás dediquei bem meia hora a argumentação com um de seus donos sobre o assunto. Ainda tenho esperança, mas talvez seja mais fácil virar pastor evangélico. Em todo caso...Aleluia!

O escafandrista e a sexualidade



Nada é mais natural do que respirar. A Antiguidade, em sua lucidez pré-cristã, atribuía ao Ar (pneuma) a condição de elemento vivificador que, conforme alguns representava o próprio espírito divino presente na criação. A igreja nascente, ao criar a sua teologia sob medida, confunde “pneuma” com o espírito santo e o identifica com aquela pomba tão bem descrita por Fernando Pessoa, roubando-o definitivamente aos seus acólitos. Se não me engano, isso aconteceu no fatídico Concilio de Nicéia. Na falta de organização popular, não apareceu nenhum MSE – Movimento dos Sem Espírito. Que pena!

Em tempos de ecologia militante somos constantemente lembrados da importância da qualidade do ar para a Vida. Pois bem, supondo que do desmatamento a poluição tudo passa pelo ar que respiramos e sem o qual não viveríamos, podemos concordar que nada é mais natural do que respirar?

Se uma premissa comum é metade do dialogo, já a temos. Sou tentado pela paráfrase fácil: respirar é preciso, viver não é preciso. Tristemente fácil já que muitos são os que respiram e não vivem. Mas o ato natural de respirar tem a sua igualmente natural complexidade. Alem do básico e instintivo binômio inspirar-expirar, temos a respiração iogue, a dos nadadores, dos mergulhadores, dos músicos, dos que inflam balões em festas infantis, dos atiradores de zarabatana, dos cantores, dos ciclistas e dos sopradores de vidro, dos aniversariantes diante do bolo, dos arqueiros e atiradores com armas de fogo, dos atletas, dos fumantes e garçons, dos pássaros, peixes e plantas, etc. ad nauseam, mesmo sob uma severa generalização.

A cada situação corresponde um aprendizado e a necessidade de aperfeiçoamento. Sempre sob a égide da prática correta para um bom resultado. A leviandade é má conselheira e pode ser letal nessa questão tão profundamente natural. Cabe a cada ser humano perceber a sua própria necessidade respiratória e adequar-se a ela da maneira mais eficaz para os resultados pretendidos tendo em vista o prazer que pretendam auferir da sua atividade. Mesmo aquilo que chamei antes de “básico e instintivo binômio inspirar-expirar” pode significar prazer puro quando estamos nas vizinhanças de um campo de flores ou de um fogo operado com maestria. Diz a Tradição: toda verdadeira alegria vem do Paraíso!

Limitar esta função biológica sob qualquer justificativa dogmática é negar o direito a vida. Delimitar os seus fins e objetivos é arbitrariedade fascista. Arrogar-se o direito de aprovação da sua prática por terceiros é criminoso (lesa humanidade). Negar conhecimento ou ação que permita a qualquer ser vivo atingir a plenitude da sua expectativa respiratória é inominável. Colocar alguém num escafandro e lançá-lo a água é assassinato. Como se pode perceber, a minha visão do ato de respirar não pressupõe ensaio-e-erro além do natural, nem exclui o aprendizado consciente.

O motivo desta postagem foi uma acusação de irresponsabilidade (obviamente apoiada na velha desculpa de que não sei como é por não ter filhos) quando afirmei numa conversa com amigos que cabia aos pais de hoje prepararem os seus filhos para a sexualidade tornando-a algo tão natural quanto respirar. Sei que sou um dinossauro. Meu RG e o espelho ao barbear mantem-me rigorosamente informado. Mas nunca assumirei a patranha da cidadania com que tentam assassinar a Liberdade. Muitas foram as vezes em que renunciei a ela, mas sempre através do seu legítimo exercício – o livre-arbítrio. E sempre valeu a pena.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

On the road 5

A ultima fase da viagem foi sob chuva até a parada do ônibus em Rancho Queimado. De lá até Urubici foi diminuindo, deixando o asfalto e a vegetação molhados sob a uniformidade cinzenta do céu. Dia seguinte de sol pleno. Percorrer Urubici no arco solar pode ser uma experiência fascinante sob a ótica da luz. As montanhas mostram a sua aura quase como se, na sua condição de grandes iniciadas nos mistérios da natureza, desejassem lembrar aos humanos que mesmo quando o sol caminha para o Oeste ainda a luz brilha no Leste. Desta vez tive a sorte de conhecer mais a gente de lá. E sou grato por isso. Creio que esta viagem, na sua totalidade, foi uma viagem ao meu eu interior. Para ser honesto talvez deva contar que subindo a serra, tendo no banco ao lado apenas a mochila com a tralha eletronica e papel consegui finalmente chorar silenciosamente o que deveria ter feito há quase oito meses atrás. Talvez a montanha seja o único lugar onde o humano atinge a sua coerência dimensional. Abençoado seja "São" Kerouac.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

On the road 4

Há, ao que parece, uma percepção generalizada (e estatística) em SC sobre o fato de que chuvas na lua nova de setembro e a presença do vento sul significam um período de chuvas por pelo menos nove semanas. A propósito disso, ouvi ontem a noite numa lanchonete um indivíduo dizer que ia fazer curso para sapo. Hoje pela manhã, sol! "Simpatia" ou falta de vaga?

On the road 3






O módulo desta viagem que respeita a Paulo Lopes,SC já pode ser fechado. Balanço feito da experiência: preciso reaprender a aprender. Desde a chegada e hospedagem no ventiunico hotel – no posto de gasolina “do primeiro trevo” (leia-se BR 101, km 253) – a ruptura de paradigmas pessoais entra em ação. Já estive em todos os tipos de hotéis, de cinco estrelas ao buraco negro, em um bom numero de países, mas nunca em um hotel de caminhoneiros. A surpresa vem da somatória de higiene e tranqüilidade com simplicidade e cortesia. Nenhuma maleta da samsonite nem palmtop a vista. Outro planeta.

Desde Waraya eu não tinha contato com tantas pessoas vivendo real e exclusivamente da terra; e todas empenhadas em manter uma abordagem agriecologica mesmo nas raras exceções onde o manejo das culturas não é orgânico. Ali, qualquer interface é orientada pela noção de pertinência. Tudo isso marcado por uma intensa vitalidade. Perfume do arroz em brotamento, nuances de tonalidade em óleos essenciais correspondendo a plantas sadias e plenas, batatas orgânicas germinando no inverno e superando expectativas normais de produção afloram na conversa dessa gente, que diz e explica o como e o por quê sem recorrer a nenhuma forma de misticismo, só ao trabalho.

Uma prova indiscutível dessa leitura atenta e profunda do ambiente é o trabalho de coleta de descartes da sua própria mata nativa feito pelo agricultor Silvio Fernandes. De cascas e galhos apanhados no chão nascem figuras representativas de seres e momentos da natureza circundante e ao falar disso, Silvio coloca-se não como artista, mas como um tradutor da linguagem da natureza.

Preciso, de fato, reaprender a aprender. Talvez já esteja começando. Estou olhando para o rio antes de atravessar a ponte. Um agradecimento necessário - a um novo amigo que pelo dialogo se mostra um velho irmão - Glaico Sell. Os exemplos de práxis do Glaico e sua esposa Rosa mostram que ainda vale a pena acreditar na vida.

domingo, 23 de setembro de 2007

On the road 2

Uma Florianópolis chovida e brumosa vestiu a ponte velha de neblina. Já o caminho para Paulo Lopes foi nublado e frio.

sábado, 22 de setembro de 2007

On the road

Sem a profundidade de Kerouac, ponho os pés na estrada. Talvez um pouco iluminado (uns 2,5w) por seu espírito. Destino sul com múltiplas paradas. O objetivo é trabalho, só ele.
Já houve tempo (há um tempo prá cada coisa, nos adverte o Eclesiastes) em que o objetivo era o autoconhecimento. Hoje, mais prosaico, e igualmente sério, é o pão. O lado gratificante é que o resultado será partilhado.
. . .
Hoje é o aniversário de um amigo muito especial. É, entre outras coisas, o autor de um texto que espero ver completo na Web um dia para demonstrar, inequívocamente, que é possível ir a India sem "viajar na maionese". Pois é, é um autêntico sobrevivente do condicionamento que sofrem os do MSG-Movimento dos Sem Guru quando passam a receber a sua cesta básica mística (paga em US$, claro!). Manteve-se, o texto o demonstra, como observador neutro. Creio que o maior produto indiano de exportação, atualmente sejam os "gurus vivos". Já existe até a expressão aplicada pejorativamente a quem faz parte de ordens iniciáticas tradicionais: "...mas o meu Guru está vivo e os seus não!" Interessante nisso é a confusão estabelecida entre os mestres que legaram uma herança à humanidade (sem jamais se arvorarem em gurus ou mesmo em mestres) e os "iluminados" que vendem pacotes de sabedoria aos seus prosélitos. Engraçado é que a veneração desses "gurus" pode, dependendo dos promotores do evento, ensejar uma experiência de alguns milhares de dólares mas sempre marcada pela característica de "sopa-dos-pobres". Feliz aniversário, Leo! E que a sua "Viagem a India" venha a ser uma continuação dos relatos de Sir Richard Burton nestes tempos pós-modernos.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O barbeiro e a próstata

Talvez movido por um sentimento de culpa - o de haver privado os barbeiros durante a minha juventude do seu direito ao ganho honesto por exercício profissional – tenho, regularmente ou quase, recorrido a esses profissionais. A escolha recai sempre em indivíduos de idade compatível com a minha ou mais velhos, já que talvez seja uma reparação kármica.

Hoje fui cortar o cabelo e aparar a barba. Há cerca de dois anos tive que recorrer a este senhor já que o que me atendeu nos quatro anos anteriores havia falecido em conseqüência de infarto fulminante após uma semana de hospitalização, donde, ninguém se machucou.

Ditas as coisas usuais a conversa derivou primeiro para o cliente anterior, mudo como uma pedra, que ele informou ter sido muito conversador até ser vítima de um derrame. Daí a conversa foi para a preparação necessária para fazer ultrassonografia de próstata. Mais adiante veio a revelação que, creio, deve abalar a ciência: ele "está com próstata há seis anos" (tem 66 de idade, filhos e netos) mas conforme o médico, não há problema por ela estar muito pequena. Uma pergunta ficou na minha humilde cabeça: como se contrai próstata?

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Lauro, o Detran, o Zagaia e o pedágio.

Durante os quatro últimos dias ditos "úteis" passei nada menos que três entre os saguões e o entorno do monstro niemayeriano do Detran de SP. Prá variar, um exemplo da eterna megalomania do Sr. Oscar que nem a velhice, que para alguns traz a sabedoria, conseguiu atenuar - veja-se o Memorial da América Latina e o monumento a JK. Com a idade do projeto pesando-lhe às costas, (o venerável Lucio que o diga!) fica mais do que evidente que este senhor não prima pela preocupação com o uso real do espaço. Manutenção, aliás, difícil "pela própria natureza"é palavrão e boas edificações requerem menos. Foi assim, nesse "pátio de milagres" tão ao gosto medieval, que lembrei do Lauro. Absoluta falta do que fazer enquanto um "despachante" procurava contornar meandros de incompetência que fazem com que um cidadão comum tenha que autenticar um procedimento pré-autenticado pelo INMETRO mediante declaração com firma reconhecida em cartório. O Lauro é um amigo que não vejo há muitos anos. Espero que ainda viva saudável e bem na La Paz do Evito (mas que Deus o livre dele!). Laurito tinha uma avó. Esta como as avós andinas, não tinha aquela informalidade e competitividade que as faz tentarem suprar as mães nas preferências dos filhos. Era altiva, digna e doce como o sabem ser as mulheres da gente aymará. Foi para ela que meu pensamento, entre irado e desocupado, viajou durante as caminhadas inúteis entre marquises. Foi dela que ouvi, muitas vezes: "Tiawanaku foi construida quando os aymarás sabiam fazer a pedra!" Eu lembrava então a nossa clássica expressão - "No tempo do Zagaia...". Este personagem, que nunca existiu, era na verdade o resultado da corruptela da expressão: "nos tempos da azagaia." Ambas para indicar um tempo tão antigo quanto edênico ou seja, livre do pecado. Voces podem imaginar a minha cara, horas mais tarde no pedágio de Sorocaba quando a gentil cabineira pegou numa nota de cinco reais e a observou contra-luz? Perguntei-lhe se estavam usando notas falsas de 5 reais: "- de 1, 2, 5,10,20,50 e 100 reais feitas em copiadoras color!" Quero de volta o tempo da azagaia, quando os aymarás, sem evito y sus ministros sabiam fazer a pedra. Viva o saudosismo ético!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

"Quem lê tanta notícia?"


in "Proibido proibir" de Caetano, quando era lúcido.


Questão de método

" O método experimental consiste em revisar os teoremas e não em coloca-los em conserva. É a teoria que deve adaptar-se a natureza e não a natureza a teoria."

Claude Bernard, 1813-1878, médico, fisiologista e filósofo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Ovidio, Perseu e o coral

Apesar de ontem, a vida, o Brasil e os blogs continuam. Passemos dos óvnis a cavalos e seres voadores, estes menos controversos e mais poéticos. Para nós ocidentais, a figura um pouco esmaecida de Perseu sempre esteve ligada ao igualmente mítico Pegasus que, graças a um programa de e-mails, tornou-se mais célebre que o seu cavaleiro. Embora a relação entre ambos tenha existido na história do mito, nem sempre Perseu valeu-se dele, já que naqueles tempos paradisíacos da Hélade não havia Anac nenhuma prá atrapalhar. O únicos acidentes aéreos dessa época são o de Icaro e o de Faetonte, ambos comprovadamente provocados por falha humana... de caráter. Naqueles tempos, as falhas humanas de caráter vitimavam apenas os que as tinham.
Perdoem a derivação. O objetivo desta postagem é esclarecer a origem dos corais segundo Publio Ovídio Naso, nascido em 43 a.C. na região dos Abruzos, Itália e morto em 17 d.C. em Tomis, hoje parte da Romênia, amargando um exílio provocado pela publicação de seu livro “A Arte de Amar” que 2000 anos depois ainda merece leitura e reflexão. Mas é nas “Metamorfoses” que encontraremos esse fato.

A coisa, latim a parte, passou-se desta resumida forma: Perseu, após cortar a cabeça de Medusa decide partir e fixa em seus calcanhares um par de asas mágicas. Ao aproximar-se pelo lado do mar dos campos de Cefeu avista, atada a um rochedo uma belíssima figura de mulher. É Andrômeda. Toma-a inicialmente por uma estátua mas o vento movendo os seus cabelos e lágrimas em seu rosto fazem com que o herói apaixone-se instantaneamente por ela chegando quase a despenhar por esquecer-se de bater as asas mágicas – é Ovídio quem o diz. Decidido a libertá-la, envolve-se em luta com o monstro que a guarda por ordem de Amon. Ele vence, naturalmente, e desce com ela na praia. Para purificar-se do sangue do monstro abatido, precisa apoiar na areia a cabeça de Medusa que traz sempre consigo. Imaginem os problemas de um currículo documentado de herói mítico. Para protegê-la, coloca-a sobre folhas e varas que crescem sob as ondas e estas, ao contato com a cabeça de Medusa endurecem imediatamente. As Ninfas do mar, espectadoras inevitáveis de fatos heróicos, interessam-se por isso e colocam as ramagens petrificadas em contato com outras plantas, obtendo o mesmo efeito. Usam-nas então para semear o oceano e com isso dão origem aos corais em toda a sua diversidade.

Muito mais há nas “Metamorfoses”. É belíssima a narrativa, já no Livro I, da criação do mundo. A leitura de Ovídio areja a alma com os ventos de Eolo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Onde é o Haiti?

A culpa é deles! Só pode ser! Senão, como explicar os atentados de hoje em Brasília? Contra deputados e contra o povo brasileiro. Mas a Internet explica: no site http://area51.blig.ig.com.br/ foi publicado hoje um vídeo amador registrando o aparecimento de Ovnis no Haiti. Segundo o nosso Ministro da Cultura, "o Haiti é aqui!". Ele sabe. Cada país tem o setembro que merece.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

"Não sei..."

O pps veio por e-mail. Dois motivos de gratidão. Estar na tua lista, D. e lembrar Cora Coralina. Pra nós, os envelhescentes – este não é o teu caso por ainda muito, muito tempo – a memória é gênero de primeira necessidade. E você fez lembrar o dia, 42 anos atrás em que o Rúbio, filho da Dna. Vicência apareceu com meia dúzia de livros de capa azul pálida no ginásio. Éramos da mesma classe. Disse-nos que sua avó havia publicado aquele livro e se teríamos interesse em comprá-lo. O título parecia fascinante: “Poemas dos Becos de Goiás e outras histórias”. Claro! O texto mostrou-se mais fascinante ainda. Era o ano de 1965. Goiás parecia tão remoto e Dna. Ana (a avó do Rúbio) o trazia tão perto. Prá não parecer magia, ela mesma explicava em “Ressalva”: “Versos... não / Poesia... não / um modo diferente de contar velhas histórias” (Poemas dos Becos de Goiás, Ed. José Olympio). O tempo passou. Outros livros vieram e com eles a dimensão totalizante de Cora Coralina. Posso te contar uma coisa? Eu também não sei porquê, mas alguma coisa faz com que eu a associe ao Siron Franco de uns 25 anos atrás. E penso nos quadros dele como uma sobrevida dela. Obrigado, D., pela inclusão na tua lista.

Ilustração: "Madona, 1977" óleo sobre madeira de Siron Franco

sábado, 8 de setembro de 2007

Postal do Bruno

Caro Bruno,
você não imagina a alegria em receber o teu cartão postal. Especialmente levando em conta que ele foi produzido vinte e dois dias antes do teu terceiro aniversário. Sei que contaste, por motivos óvios com a ajuda da escriba materna de plantão para transmitir os teus votos. E te digo que eles se revestem, nesse momento, de um profundo significado simbólico prá mim, coisa que devo creditar a uma sintonia fina que creio existir entre nós, motivada até pela expectativa da tua vinda.
Tua forma de faze-los, não deixa de ser uma visão nova das velhas bençãos. Para partilhar o teu ensinamento com os que aqui vierem devo enumerá-las:
"Feliz Parabens! / Luz! / Castelo / Cachorro! / Gato! / carro!/computador! / regador!"
Agradeço-te também o envio do Fio de Tomada. Bem vista, a tua leitura a meu respeito é, pode-se dizer, terapêutica. Te sou grato pelo ensinamento recebido e pela lembrança de que Deus tem infinitas formas de mostrar o Seu amor. Um beijão e Feliz Parabéns no teu terceiro aniversário.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

por falar em poetas...

XL

Segnor, pensava in rime racontarve
ove prima ligato fu el mio core,
ove el mio pianto comenciò e ‘l dolore
e fece Amor di me quel che alui parve,

quando Apollo, segnor nostro, m’apparve
e disse:-Or canta d’um chiaro splendore
ch’aluma l’universo, e lassa Amore
chel’uom sempre lusenga in false larve.

Io ben del suo nome cantarei,
Ma se ne sdegna e, facto emulo a nui,
Spesso ad altrui mi fa parer men chiaro.

Così lui a me; et io risposi a lui:
-Volentieri, Signor, te ubedirei,
Se donato m’avesti um stil più raro.

(Giovanni Pico della Mirandola – 1463-1494. De “I Sonetti”, Basiléia, 1496)
Autor também do “Discurso sobre a dignidade do homem”



quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Neruda

Em tempos de Bento 16, vale lembrar Neruda: "Quantas igrejas tem o Céu?" (Libro de las preguntas, 1974) Ali, onde a perplexidade faz o seu pensamento quase livrar-se do vínculo ideológico, ele se aproxima de Borges, sem toca-lo. Ambos amaram, a seu tempo e modo, Walt Whitman e Breton. As palavras soltas nos permitem até supor Londres um Vaticano dos guarda-chuvas. A propósito, Pablo Neruda era o pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, que era ninguém menos que Pablo Neruda.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O Bombeiro e o Pit Bull



Quando olhar para este símbolo, apesar de sua linguagem antiga (isto é Tradição, no melhor sentido da palavra), faça-o com carinho e pense naqueles que ele representa. Hoje fui confrontado com uma TV no horário do noticiário do almoço. Após uma sucessão de matérias maniqueístas sobre o tema "Pit Bull ataca!" mostraram um resgate de um Pit adulto abandonado feito pelo Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. O bombeiro aproximou-se do animal falando com ele com carinho e o cachorro começou a acompanha-lo. Foram até a viatura onde o cão entrou sem ser forçado. A nota triste foi dada por um imbecil em off que rindo disse: "Hoje eu vou ver um cachorro morder um polícia!" A coisa incomodou porque, aparte o fato de sabermos há milênios que um idiota é um idiota, este parecia ter prazer na sua expectativa. A sua desinformaçao não lhe permitia perceber que para ser bombeiro é necessário mais do que a coragem. É necessário amar a Vida em suas infinitas manifestações e servi-la com esse exato sentimento. Abençoados sejam eles por isso.

Inutilidades úteis

Notei que dividir um sanduíche em pão de forma em diagonal pode melhorar a auto-estima. Com vocês também funciona?
. . .
Tomar chá sozinho com leite e cardamomo também. Afinal, já diziam os comandos ingleses durante a Segunda Guerra Mundial que o único lugar onde a companhia para o chá é absolutamente indispensável é no Inferno. E sempre de inimigos.

domingo, 2 de setembro de 2007

E Bob Dylan, sem querer, apresentou Jimmy Smith

Um dos maiores impactos da minha adolescência veio de “Highway 61 Revisited”. Acho que muitos outros do meu tempo sentiram isso. Ali estava “Like a Rolling Stone” e era um complemento necessário a nossa prévia descoberta de Lindolf Bell e a Catequese Poética. Hoje creio que, para alguns, essa é a fase da síntese absoluta. Em nenhum outro momento estaremos tão aptos e ávidos para incorporar a vida como ela é baseados somente na escolha instintiva do que nos serve ou não. No meu caso, a natureza desse impacto foi, antes do texto, a sonoridade. Só depois vim a saber da força de um Hammond B-3. Mas a sua presença ali mostrava que havia mais do que Bill Halley e seus Cometas Alienados. Um comentário sobre o uso do órgão no arranjo provocou o resto: “vc já ouviu Jimmy Smith?” (intervalo religioso: “-Senhor Deus do Universo, se esta é uma terra de penitência, a minha geração já a cumpriu integralmente por viver também num tempo sem Internet!” fim do intervalo). Achar discos naquele tempo, 40 anos atrás, não era só questão de dinheiro... era também de geografia e convencimento familiar. Mas a teimosia sadia sempre vence, algumas vezes em forma de bolachas de vinil. Foi assim que cheguei a descoberta do Sr. James Oscar Smith. Jimmy se foi em 2005 aos 79 anos.
Alguém tem dúvida quanto ao destino?

Empadão goiano, a receita

Massa: 4 xícaras de chá de farinha de trigo / 3 ovos / ½ xícara de chá de óleo / 1 colher de chá de fermento em pó / 2 colheres de sopa de banha / sal a gosto.

Recheio: 300 g de frango cozido e desfiado / 150 g de queijo Minas em cubos/ /150 g de guariroba* picada, deixada de molho durante 1 hora em água com o suco de 1 limão e escorrida / 150 gr de batata semicozida e picada / 50 gramas de azeitonas / 2 lingüiças finas cozidas e cortadas em pedaços de 2 cm (+/-) / 1 dente de alho amassado / 1 cebola picada / sal e pimenta a gosto /250 ml de caldo de frango.

Preparo
Para a massa: junte todos os ingredientes até formar uma massa homogênea e deixe descansar por 30 minutos, abra e forre uma assadeira. Os ingredientes do recheio devem ser refogados à parte.

Para montar, coloque o recheio na assadeira já forrada com a massa, cubra com o restante da massa apertando bem as bordas, e leve em forno pré-aquecido a 200oC, durante 30 minutos.
*guariroba = gueroba

Para fazer um empadão para consumo individual como o da foto use uma forma de louça refratária.

IMPORTANTE: o Empadão Goiano tem uma altura média, quando assado, de 5,5 cm. Menos de 5 cm é sacrilégio. A espessura da massa na montagem não deve ultrapassar 0,5 cm; seria pecado.

sábado, 1 de setembro de 2007

Caldas Novas 1

É curioso como as estações rodoviárias a noite não conseguem livrar-se, por mais que o tentem, daqueles ares de pátio de milagres medievais. Ultrapassado esse desconforto e um bom período de rodagem aportei em Caldas Novas, Goiás. Da cidade que conheci há 28 anos já quase nada resta. A população passou de 8.000 habitantes para mais de 90.000 hoje. Uma coisa estranha e boa no meio dessa desordem neourbana: o empadão goiano que só era comido em casas onde se praticava cozinha tradicional goiana ganhou a rua e está presente em restaurantes e lanchonetes. Tive sorte de encontrar em uma pequena confeitaria chamada Marinella, no centro, uma que continha também a gueroba ou guariroba, o "palmito do cerrado". Prometo a receita.